Saturday, March 31, 2007

RC: Brincando de morrer

A vida de um sonho é complicada quando você tira ele do armário. Apenas com este conto que apresento a vocês, garanto que o meu sonho perdeu alguns quilos devido ao esforço. O trabalho foi considerável, ainda mais pela intervenção musical que me fez mudar o destino original da personagem principal do conto. Algum dia, todos esses contos com RC estarão em um bonito livro, que vocês poderão ler nas suas próprias mãos ao invés de online. Sei que pedir comentários não fará algumas pessoas que aqui passam comentarem, mas mesmo assim, peço que comentem. E aproveitem! :)




RC: Brincando de morrer


Chegamos perto do final
Eu fico assim porque não sei me conter
Só conheço uma luz
Não vejo lógica no fim
Odeio ter que esperar para saber
O que é tão claro pois
Quebraram o relógio do universo
E eu não vou ficar para trás
Trocaram o errado pelo certo
Cem anos não me bastam mais
Mesmo assim, não fique aí parado, meu rapaz

Relógio do Universo, Lunática



Acabava mais uma manhã de aulas. Bandos e bandos de garotas saíam das salas, radiantes, com sorrisos alegremente estampada nos seus rostos. Conversavam sobre o conteúdo recém-aprendido, e os planos para o fim de semana ao lado dos namorados. Eram tão felizes que a felicidade delas parecia resplandecer ao Sol.
Porém, nem todos estavam brilhando naquele fim de manhã de sexta-feira. Será que é obrigação das pessoas ter felicidades que resplandecem ao Sol? Será que, apenas tendo isso, você é normal e pronto?
Eram essas perguntas que passavam na cabeça de uma menina isolada que, de longe, observava as colegas como quem via um programa na televisão. Ela abaixa a cabeça e olha para o visor do celular, deixando os longos cabelos loiros pendendo ao lado do rosto. Não havia nem ligações nem mensagens. Para que diabos ela tinha aquele maldito aparelho, que não recebia nem mensagens nem ligações? Se ela fosse alguém com mais determinação, ela atiraria o celular longe naquele mesmo instante. Mas ela não fez nada. Era geralmente o que ela fazia: nada. Os outros é que faziam, eles é que normalmente iam embora da vida dela.
A manhã que então findava era a de um dia de outono, que então deixava o pátio do campus cheio de folhas. Ela podia sentir o vento mexendo no seu cabelo e batendo contra seu corpo magro. Quantos quilos ela tinha perdido desde que toda essa história começara? Desde que ela entrara em queda-livre? Não há como saber o tamanho do estrago até se chegar ao fundo.
De repente, como um tiro em meio ao silêncio sem palavras, o celular tocou. Era o último resquício de família que ela ainda tinha: sua mãe.
- Oi, mãe. - disse ela, levando o aparelho ao ouvido enquanto lutava contra o vento batendo nos seus cabelos. - pode falar, estou ouvindo.
- Carolina, onde você está? - A voz da mãe dela ainda soava excessivamente preocupada. Haviam passado menos de quinze minutos do fim da aula, onde ela poderia estar? Mas ela mal levou isso em consideração, deveria ser uma preocupação natural para uma mãe que já perdeu um filho.
- Acabei de sair da aula, mãe. Hoje só vou ver aquelas aulas e depois vou pra casa, acho que antes das cinco eu chego.
A mãe dela disse "Ah, tá" e desligou. Aparentemente, a necessidade de segurança diária dela já havia sido suprida. Carolina começou a caminhar afastando-se do prédio de aulas, as folhas levadas pelo vento batendo nas suas costas. O cabelo, sendo levado pelo vento o tempo todo, a incomodava. Ela era uma estudante de Pedagogia, que dava aulas particulares para crianças no seu tempo livre. No entanto, quem a tivesse visto no começo da faculdade poderia até mesmo não a reconhecer agora. Com vinte e um anos, cerca de uns vinte quilos e incontáveis sorrisos a menos, Carolina vagava pelo campus afora, sem amigos. Enquanto caminhava para fora do campus, revivia as memórias dos útimos acontecimentos.
Talvez o mesmo vento, que fazia seus cabelos esvoaçarem, ajudasse a levar as pessoas embora. Ela lembrou-se do dia que, não muito tempo depois de ela ter passado no vestibular, ela chegou em casa para receber a notícia a respeito do seu irmão. Ventava um pouco no dia que ela soube que ele tinha se ido para sempre. Aquele rapaz alto, loiro, de ombros largos, que tanta segurança lhe passava, não existia mais. Mal havia Carolina se acostumado a ter passado de filha mais nova para filha única quando mais uma pessoa havia se ido da casa. Enquanto ela estava na aula, ela perdera uma daquelas cenas que fazem a rua parar para olhar, e que teve como resultado o fato de que, ao chegar para o almoço, apenas sua mãe estava em casa. Seu pai havia se ido também.
Qual era o problema das pessoas, que se iam assim, tão facilmente? Tão simplesmente? Deixar de existir é tão simples? Ela própria pensava em desistir, em sumir também. Parecia ser tão fácil!


Carolina marcava suas aulas por telefone, então ela acabava por conhecer seus alunos apenas no momento da aula mesmo. Ela parou em frente do prédio no qual estaria seu aluno de hoje. Era um desses prédios históricos. Um prédio velho. Desses que, quando você vê, você fica em dúvida se eles ainda são habitados normalmente ou se estão ali apenas para que as pessoas lembrem do passado ao olhar para eles. Ainda parada em frente ao prédio, apenas seus olhos azuis se moviam, observando este e aquele detalhe da construção. Prédios antigos faziam com que ela sentisse cheiro de morte. Ela torceu o nariz e tocou a campainha.
Quem abriu a porta foi um sorridente garoto de cabelos ainda mais loiros do que os de Carolina. Ah, não, mais sorrisos, pensou ela. Por um instante, ela desejou desaparecer, evaporar no ar, enquanto ouvia a vozinha feliz do garoto lhe dirigindo a palavra.
O garotinho loiro, que não deveria ter mais do que seis anos de idade e usava uma roupa parecida com um pijama, então a conduzia ela pela casa, cheia de corredores que dobravam aqui e ali, parecendo um labirinto. Um labirinto agoniante. Haviam nas paredes lindos quadros e o chão era forrado com belos tapetes bordados. Mas ainda era um labirinto agoniante. O garotinho falava sem parar, enquanto ela já havia desligado do que ele dizia, e apenas o seguia automaticamente. Os olhos dela estavam presos ao estranho cenário que aquela casa formava. Dentro daquela casa, ela sentia-se em algum lugar do século dezoito. Os móveis tinham aparência de móveis antigos, mas todos reluziam, mostrando que eram novos ainda. Estava difícil de entender o que estava acontecendo.
Até que eles chegaram à sala. Era uma sala ampla, e com poucos móveis. Encalavrada em um canto da sala, havia uma mesinha, com cadernos e livros. E na parede, de frente para a porta, um quadro enorme, que parecia ser um retrato do próprio menino. Carolina caminhou lentamente até a frente do quadro, os braços pendendo soltos ao longo do corpo, sua pasta estilo carteiro batendo na sua perna. Parou em frente a ele, e apenas então, ela se deteve a olhar os detalhes. A roupa que o menino usava no quadro soava a ela como algum tipo de fantasia, com babados e rendas. Parecia saído de algum lugar incerto do passado, algo semelhante às ilustrações representando o personagem principal do livro O Pequeno Príncipe, talvez.Apesar da diferença óbvia de idade, alguma coisa nele fazia com que ela pensasse no irmão mais velho que ela perdera. Os olhos dele eram de um verde-água, água de um mar calmo, mas que poderia atacar com ondas enormes a qualquer instante. A qualquer instante mesmo.
- Não se mexa! - o garoto gritou, e Carolina virou-se na direção dele, que estava perto da porta, atrás dela. Ela ouviu o som de algo movendo-se contra o vento, e de pequenos objetos balançando. O teto estava descendo? Não, era o lustre que estava caindo. Indo exatamente na direção dela. Ela quis correr. Quis gritar. Mas não fez nada disso. Era geralmente o que ela fazia: nada. O corpo dela caiu ao chão, com os cabelos loiros esparramados, empapados de sangue, mesmo sangue que formou uma poça no tapete ao redor dela.



Ela abriu os olhos. Olhou para o próprio corpo, nada aparentava estar faltando. No entanto, havia sangue nas suas roupas. Passou a mão nos cabelos. Estavam cheios de sangue. Mas não havia corte, não havia ferimento. Com os olhos parados, olhando para nada, ela tentava entender o que estava acontecendo.
Ela olhou em volta. Aparentemente, ela estava em algum tipo de sala. Escura. A única fonte de luz na sala era algo que de longe parecia um espelho, localizado às costas dela. Com que por instinto, ela seguiu a luz e aproximou-se do tal objeto. Tocou nele, e sentiu que ele era gelado, semelhante a vidro. Na verdade, parecia mais uma janela. No entanto, ao olhá-lo de perto com os olhos fixos nele, ela percebeu que o que ela estava vendo era nada mais nada menos do que o enorme quadro que estava na sala do menino. Era como se ela estivesse vendo o quadro pelo avesso. No entanto, o garoto, que antes posava sozinho imponente no meio do quadro, agora tinha uma companhia retratada nele. Uma garotinha loira, de longos cabelos lisos escorridos, de cerca de seis anos de idade, trajada num estilo similar ao do garoto, e com uma cruz na mão. Parecia incrivelmente com ela própria. Ela tentava lembrar se o garoto estava já anteriormente segurando uma cruz, mas ela realmente não conseguia lembrar disso.
A pintura que antes estendia-se na parede agora parecia ter sido feita em vidro mesmo, pois era possível para ela enxergar a sala na qual ela estivera a poucos intantes atrás apenas olhando para "o outro lado" da pintura. E lá, no meio da sala, era possível ver seu corpo estendido. A garota soltou um grito de admiração e levou as duas mãos à boca ao ver seu próprio corpo estirado no chão da sala, deformado com o impacto do lustre sobre ele.
- Você conseguiu - disse uma voz atrás dela.
Era o garoto. Sua voz soava agora um pouco grave demais para ser uma voz de criança, mas era ele mesmo.
- Você me matou! - exclamou ela, virando-se para ele bruscamente, com o seu espanto estampado claramente na sua voz.
- E você não queria morrer? Não era isso que você queria? - respondeu ele, sério, olhando ela de braços cruzados.
A resposta desarmou ela, que baixou os braços e ficou parada, olhando para ele. Ele seguia encarando-a, sem sorrir. Sim, era verdade, ela dizia com frequência que queria morrer. Mas ver seu corpo inerte e desmantelado não havia passado pela sua mente.
- Eu só...queria...
Ela queria fugir. Fugir de tudo que estava dando errado. Fugir de tudo que acontecia de maneira imprevista, de um jeito que ela não sabia o que esperar. Fugir de tudo que ela não sabia controlar.
- Eu lhe dei o que você queria - ele ainda a encarava, quase com cara de raiva. - e agora ninguém mais vai fugir. Ninguém mais vai magoar você.
Ela olhava para ele com uma expressão apavorada estampada no rosto, os olhos lacrimejantes. Queria fazer alguma coisa, mas não sabia o quê.
- Olha - disse ela, se esforçando para formular seus pensamentos o mais claramente possível - isso é um mal-entendido, eu quero voltar.
- Para quê? - disse ele, de braços cruzados, impassível - Para continuar sendo abandonada?
Ela não via resposta para isso. Ela achava que ele tinha razão, então como contrariar?
- Tem várias coisas que eu ainda não fiz na vida... - chutou ela. Foi o que lhe viera à mente na hora.
- Como por exemplo....?
Ela girou os olhos. Olhou em volta. Olhou para cima, como se isso a fizesse entrar em contato com os próprios pensamentos. De repente, com a rapidez de uma luz que é acendida na escuridão, uma idéia lhe ocorre:
- Eu nunca amei ninguém!
A surpresa com as palavras dela ficou evidente no rosto dele.
- Nunca amou ninguém? - repetiu ele, como se não acreditasse.
- É! Você sabe, eu nunca namorei ou algo assim...
A vida de Carolina no departamento amoroso era até então uma coleção de declarações não-correspondidas e de amores platônicos, nenhuma chance de relacionamento real. Se alguém dissesse a ela poucas horas atrás que ela usaria isso para salvar a própria vida, ela provavelmente teria olhado para a pessoa com sarcasmo e dado risada.
Ele ficou parado, olhando para ela, sem emitir um único som. Permaneceu assim por um tempo, até que por fim ele falou:
- Depois de tudo que você passou, depois de tudo que você viu...você ainda quer tentar isso, só para ser abandonada de novo?
Ela tentava juntar forças para contra-argumentar. Ela por fim conseguiu dizer:
- Bem...se eu morrer, eu não vou nem ter como tentar, né? - disse ela, tentando sorrir timidamente.
- Você passa o tempo todo pedindo uma coisa e, quando a ganha, diz que não quer mais...depois não me venha reclamar! - disse ele, com raiva.
Mal ele terminou de pronunciar essas palavras e a luz que provinha do quadro se apagou. A sala ficou totalmente escura. É o fim em definitivo, ela pensou. Ficaria na morte para sempre. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi sentar em um canto e chorar. Ela, porém, logo sacudiu a cabeça, balançando para os lados os longos cabelos loiros:
- Sentada não chegarei a lugar nenhum.
Em uma escuridão na qual não se via nada, Carolina estendeu os braços para a frente e saiu andando, sem saber para onde, sem saber esperando o que encontrar.
Ela não saberia dizer quanto tempo ela passou caminhando no escuro. Ela não saberia dizer quantos milhares de vezes ela pensou em desistir. Mas ela seguiu caminhando. E, por fim, bateu em alguma coisa semelhante a uma parede, que tinha textura de madeira. Não, não era uma parede: era uma porta. Tinha uma maçaneta, gelada e arredondada. Girando a maçaneta pode-se ouvir o gemido da porta ao ser aberta e logo uma luz forte e intensa cobriu os olhos azuis dela: ela estava na rua de novo.
- Acho que eu vou sair da comunidade "Eu nunca morri na minha vida" - disse ela, e começou a caminhar no caminho para casa.

Sunday, March 18, 2007

RC: The Other Side.

Recentemente resolvi abrir o armário no qual eu guardava meus sonhos, e esbarrei com um deles dormindo, lá num canto escuro. Era o sonho de um dia lançar um livro de minha autoria. Esse sonho é gordinho e sedentário, pois é alimentado há vários e vários anos. No entanto, os olhos dele são muito sensíveis à claridade, pois ele nunca vira o sol. Praticamente ninguém que me conhece sabia da existência dele. Guardei um outro sonho meu, que estava magro e cansado de tanto trabalhar, e resolvi tirar esse sonho do armário. Para isso, tive de mexer em outro armário, o armário no qual guardo algumas das minhas idéias literárias, digamos assim, e colocá-las para fora também.

Todas as vezes que vocês lerem este pequeno texto que vocês estão lendo agora antes de um conto aqui no blog, significa que esse conto está sendo cogitado para o meu livro. Por isso, quer você seja uma pessoa desconhecida acessando randomicamente meu blog ou quer você seja um amigo meu que me conhece a anos, peço que você comente. Se você estiver lendo isso antes do texto, e se você vir as iniciais RC no título do texto, por favor comente o que achou a respeito dele aqui no blog, pois estes textos necessitam de um feedback. Talvez vocês vejam textos irem e voltarem, textos serem postados mais de uma vez, com apenas pequenas diferenças no texto original. É assim mesmo que é para ser.

No momento, as idéias estão correndo por aí, como hamsters na esteira. Preciso da ajuda de vocês para saber quais delas devem continuar ganhando ração após a corrida.





RC: The Other Side.



The Grass is always greener on the other side.
Side, Travis





Todo dia era a mesma coisa. Minutos e mais minutos amontoavam-se sendo desperdiçados dentro de um ônibus, cheio de gente, e isso tudo apenas para se chegar onde se precisava chegar. Apenas a jornada já era cansativa, o que dirá o resto do dia?
À medida que o ônibus entrava na Free-way, era possível ver as expressões paradas das pessoas contrastando com a paisagem se movendo rapidamente do lado de fora da janela. Uma massa amorfa de pessoas indo trabalhar, indo estudar, indo, enfim, cuidar das suas vidas. Um rebanho de pessoas paradas dentro de uma caixa se movendo estrada afora.
Para quê?
Era isso que ela se perguntava, olhando pela janela. Ela bocejava, mecanicamente passando a mão pelos seus cabelos lisos. Ver seu próprio reflexo contra a janela, ver seu rosto flutuando em meio à paisagem da rua seria surreal, se já não tivesse visto isso todo dia. Rotina. Até mesmo algo surreal, em contato com a rotina todo dia, acaba desbotando.
- Roberta!
Roberta virou-se e olhou para a garota sentada ao seu lado no ônibus. O vento que entrava pelas janelas abertas do ônibus fazia o longo cabelo da garota ondular, às vezes cobrindo seu rosto. Ela repetiu o gesto mecânico de passar as mãos no próprio cabelo, enquanto ouvia a garota falar:
- Ontem estreou a segunda temporada de Card Captor Sakura! Agora a Sakura converte as Cartas Clow em Cartas Sakura, e elas ficam cor-de - rosa!
Era normal ela largar um assunto assim, do nada. Sempre que Roberta ficava quieta, ela se encarregava de não deixar a situação por muito tempo assim. Parecia a Roberta que ela queria apenas um pretexto para ouvir a voz dela, como se qualquer assunto no fundo apenas servisse para carregar consigo um "Ei, fale comigo!" embutido atrás.
- É mesmo? - disse Roberta, olhando para ela e logo em seguida voltando o olhar para a janela - e o Shaoran, como fica nessa temporada?
Com Roberta tendo dito seu turno, agora ela seguiria falando. Roberta gostava do som da voz dela, era suave e infantil. Mas, com a própria Roberta perdida nos seus pensamentos, a voz dela era apenas uma suave e infantil música ambiente. Junto com as árvores passando rapidamente do lado de fora, Roberta sentia que algo estava se indo. E rápido, como a paisagem lá fora. Mas o quê?
- Ei, eu perguntei o que você acha! - Roberta levou um cutucão no braço. Ela não estava a par do assunto. Apenas ouvia a voz dela ao fundo. Sim, ela gostava de ouvir ela falar. Então, onde estava o problema?
- Eu acho que a Sakura deveria ficar com a Tomoyo - arriscou Roberta, sem ter certeza de a quantas o assunto andava. Ela sentia algo se esvaindo, algo sendo levado embora junto com o vento que soprava forte dentro do ônibus. Ela olhou para a garota ao seu lado. Desejou que ela dissesse o que havia de errado. Desejou que ela dissesse o que estava se indo.
- Eu também acho! - respondeu ela, com um grande sorriso, os olhinhos negros brilhando. Ela parecia tão feliz simplesmente por estar ao lado de Roberta, apenas por isso!
Não, ela não podia ler seus pensamentos. Claro que ela não poderia dizer o que ocorria, disse Roberta para si própria, tentando se convencer.
E a cena se repetia dia após dia. Roberta seguia perdida em seus próprios pensamentos. Até que, na sexta-feira, algo de diferente brotou, como uma flor que nascera perdida sozinha no alto da montanha:
- Você já se perguntou para onde vão todas essas estradas?
Roberta virou-se e olhou para ela subitamente, sem nem passar a mão nos cabelos. Será que, de tanto pensar, o vento levara os pensamentos de Roberta voando até a mente dela? E ela apontava para fora, traçando com os dedos linhas que seguiam as diferentes estradas da Free-way.
- São tantas estradas, e a gente segue sempre a mesma. O que será que tem nas outras?
Nas outras estradas, o que haveria nas outras estradas? Certamente algo que vivo e brilhante, que não haveria ainda desbotado pela rudeza do contato diário com a rotina.
- Depende da estrada - respondeu Roberta, sem conseguir colocar seus pensamentos em palavras. Mas ah, a semente estava lançada. As outras estradas, claro!
E então o domingo chegou.
Os mesmos raios de sol que costumavam incomodar os olhos das duas quando elas estavam dentro do ônibus agora entravam janela adentro e encontravam a garota de cabelos longos dormindo. Dormia ela, com uma camisolinha branca, e foi assim que Roberta, que estava de jaqueta de couro e calças jeans, encontrou-a quando ela abriu a janela. Atrás de Roberta havia um carro vermelho, com o porta-malas abarrotado de coisas. Roberta apontou para o carro e disse:
- Pegue suas coisas e vamos embora!
A confusão era evidente nos grandes olhos negros dela, que olhavam para Roberta e piscavam, silenciosamente pedindo uma explicação. Roberta ajudou-a arrumar suas coisas e, com uma grande mala, as duas entraram no carro e foram se afastando cada vez mais da casa dela. Logo a paisagem familiar fez com que ela começasse a reconhecer o caminho que ambas estavam pegando: era o mesmo do ônibus de todo dia.
Por fim, o carrinho vermelho chegou na Free-way. Roberta olhou pra ela e, com um sorriso maroto, disse:
- Vamos ver o que há nas outras estradas?
Ela não respondeu, apenas manteve os olhos arregalados enquanto viu Roberta atirar o carro para fora da estrada, caindo no matagal que ladeava o acostamento. E quem passasse ali de ônibus naquela hora veria o carrinho vermelho abrindo seu próprio caminho em meio ao mato da beira da estrada, tocando a grama fresca e novinha que ainda não havia sido pisada antes.







Post escrito ao som de:

Garnet Crow - Kaze to Rainbow
Garnet Crow - Kono te o Nobaseba
Garnet Crow - Mawari Michi

Wednesday, March 07, 2007

Como dizer que te amo: um fanfic

Novamente, material de reciclagem! Um fanfic de King of Fighters que eu escrevei a um tempo atrás estrelando meu "casal" favorito da série de jogos - Kensou e Athena - e é referente ao KOF 2003, ano no qual o time dos Psycho Soldiers foi formulado sem a Athena, que estava no High Schoolgirls Team. Não postei esse fanfic em lugar nenhum, e é a primeira vez que ele sai à luz. Aproveitem!

Kensou & Athena: como dizer que te amo

Fim de 2003. Athena Asamiya estava separando as cartas dos fãs em meio a correspondência normal, escolhendo as mais comoventes para usar no seu especial de fim de ano na TV Tokyo. Bao e Kensou estavam rondando Athena enquanto isso, tentando se esconder atrás da parede mais próxima , enquanto ela parecia bem concentrada no que fazia e não reparou nos dois.
- Estamos quase em dezembro... o que dou de presente para a Athena esse ano? - disse Kensou, inquieto. Bao ficou pensativo por alguns segundos e respondeu :
- Que tal qualquer coisa que tenha escrito "eu te amo"? - disse ele, inocente.
Kensou esticou o pescoço para enxergar o que Athena estava fazendo . Ela acabava de abrir um pacote enorme com um urso de pelúcia branco, o qual segurava um grande coração vermelho com um "eu te amo" escrito.
- Ooohhh, que fofo!! - exclamou ela - já disse para eles não fazerem isso.... deveriam doar esses bichinhos fofos para crianças que precisam deles.... - e, mudando de expressão, acrescentou - ei, acho que eu posso dizer isso no programa! O que você acha disso, Kensou?
Kensou arregalou os olhos ao ouvir seu nome e Bao começou a rir da cara engraçada que Kensou fez. Saindo de trás da parede, Kensou parguntou, surpreso:
- Você sabia que eu estava aqui ??
- Claro! - respondeu Athena, com o sorriso normal que desarmava Kensou.
- Mas...como? - perguntou ele
- Fácil : ouvi sua voz quando perguntou para Bao sobre o presente de Natal.
Bao riu mais ainda quando viu o rosto de Kensou ficando coberto de um vermelho cada vez mais forte.
- Uh...é....eu .... - Kensou patinava nas palavras e não saia do lugar . Até que saiu do lugar fisicamente falando : saiu correndo enquanto Athena ria dizendo "que kawaii".
Kensou corria, corria, corria até que parou de correr e se escorou na primeira parede que viu . Bao vinha atrás , mas sem correr. Ele, Bao, já estava acostumado a ouvir as histórias desses dois, embora não houvesse muito o que fazer. Quando Bao chegou, encontrou Kensou sentado no chão.
- Eu não entendo vocês dois, sinceramente - disse Bao, inocentemente dizendo o que para ele era a verdade.
- Sempre fica pior nessa época do ano - disse Kensou - a cada ano novo que chega, tenho medo de perdê-la....
- Perdê-la como? - perguntou Bao - você tá sempre junto com ela ...até nas turnês você vai!
- Não é distância física - respondeu Kensou, mais sério - tenho medo de perder o coração dela....
Para Bao, não parecia haver maneira de Kensou perdê-la , a menos que Athena deixasse os Psycho Soldiers, já que os quatro estavam quase sempre juntos. Até os fãs de Athena já os conheciam, e Athena tivera de dizer várias vezes que ela e Kensou eram "apenas bons amigos" para acalmar a multidão masculina de fãs que ficavam sabendo que havia um homem vivendo debaixo do mesmo teto que ela.
Naquele mesmo dia, no fim do horário destinado ao treinamento, Chin estava novamente chamando a atenção de Kensou por não estar com seus poderes devidamente desenvolvidos a essa altura, e foi nesse momento que ouviu-se uma voz fininha gritando "Athenaaa!" . Todos pensaram que outra fã havia invadido o local de treinamento de novo, mas não era uma fã : era Hinako. As duas correram uma em direção a outra e , após uma tonelada de cumprimentos extremamente kawaii, Athena pediu licença e saiu com Hinako. Kensou achou estranho Athena sair sem trocar de roupa antes. Chin limitou-se a dizer aos que ficavam que podia sentir que "Hinako trazia grandes novidades". Quando Bao perguntou se as novidades eram boas, Chin respondeu que isso estava fora do seu alcance; sabia apenas que eram novidades. Kensou ficou olhando para as duas que sumiam no horizonte, torcendo para que aquilo fosse apenas "coisa de menina" e nada mais.
Quando Athena retornou naquela noite, Kensou estava na cozinha, às voltas com uma grande porção de nikuman que ele mesmo resolvera fazer para distrair-se e não "pensar bobagem". Se nikuman tivesse teor alcoólico, Kensou já estaria bêbado, pois havia comido uma boa perção deles. Quando Athena chegou, ela ouviu-a conversando com Chin e Bao, mas , ao invés de sair correndo para vê-la (sua atitude normal) , resolveu terminar a fornada de nikuman e levar o mais gordinho de todos para ela. Ou talvez isso fosse apenas uma desculpa para justificar o sentimento estranho que passava na cabeça de Kensou naquele instante. Mas o próprio Kensou afastou essa hipótese , acreditando na sua apaixonada sinceridade de apaixonado.
No instante em que Kensou entrou na sala com o bolinho de nikuman quentinho nas mãos, Chin estava terminando a frase da qual Kensou ouviu apenas:
- ... e vc precisa contar isso também para o Kensou ...
- Contar o quê? - exclamou Kensou , surpreso, quase deixando o nikuman cair.
Kensou olhou para Athena e sentiu uma hesitação no olhar dela. Mas, segundos depois, Athena sorriu e, puxando Kensou pelo braço, disse:
- Venha, vou te mostrar uma coisa !
Athena levou Kensou para seu quarto. Apenas pensar no quarto da Athena deixou Kensou vermelho, mas lago provou -se que não era nada: Athena parou em frente ao guarda-roupa, tirou de lá uma roupa vermelha e disse:
- Veja , Kensou, minha roupa para o especial de fim de ano. O que você acha dela?
Kensou analisou a roupa nas roupas de Athena. Assim, apenas nas mãos dela, parecia apenas um pedaço de pano vermelho, e Kensou não entendia onde ela queria chegar. Em uma atitude que surpreendeu Kensou, Athena perguntou:
- Quer que eu experimente?
Kensou ficou vermelho e Athena tomou isso como um "sim". Empurrou Kensou para fora do quarto e começou a se trocar. Kensou ficou parado do lado de fora da porta, olhando para o nikuman ainda em suas mãos. Sabendo que Athena demorava muito cada vez que ia se trocar, Kensou largou o nikuman na cozinha e voltou para seu posto na porta do quarto. Devem ter se passado entre quinze e vinte minutos desde que Athena entrara no quarto para se trocar e Kensou esperava lá fora. Quando Kensou começou a achar a demora acima do normal e resolveu se escurar na porta para esperar, Athena abriu a porta do quarto e ele caiu estatelado no chão. Do chão , olhando para Athena, Kensou pôde ver apenas que ela usava uma saia vermelha cheia de rendas. Athena pensou em puxar Kensou pelo braço, mas como qualquer contato físico entre os dois era perigoso para a saúde (do Kensou), apenas disse para ele levantar.
Kensou levantou e olhou para Athena. Em segundos , Kensou tinha seu veredito da roupa : achara Athena linda como sempre. Ela estava usando botas vermelhas até o joelho , detalhe que Kensou estranhou, pois geralmente a equipe de produção dela deixava as pernas dela à mostra. Isso era contrabalançado pela saia, vermelha com rendas brancas e armada, bem ao gosto das cantoras de j-pop kawaii. Apesar de kawaii, a saia era bem curta. A parte de cima da roupa era composta por uma blusinha sem mangas , com uma abertura bem no meio do peito e com um coraçãozinho no pescoço. Aliás, Kensou estranhou todos aqueles corações na roupa de Athena (nas botas, na tiara e na blusa), já que ela sempre preferia estrelas e ele sabia disso. Mas, mesmo que não estivesse 100% de acordo com a roupa, não deixava de achar Athena linda, isso era inevitável para ele.
- Você é o primeiro que está vendo a roupa depois de pronta, o que achou? - perguntou Athena
Kensou parou de babar por um instante e tentou se concentrar o suficiente para responder.
- Você está muito bem - foi a resposta que ele conseguiu articular.
- Você acha mesmo? - perguntou Athena de volta. Kensou estava achando muito estranho tudo aquilo, por que Athena estaria valorizando tanto a opinião dele hoje? Ela parecia estar se esforçando para agradar, e quem fazia isso sempre era ele.
- Claro! - respondeu ele, quase gritando, como quem responde uma pergunta idiotamente óbvia. Kensou disse isso e ficou quieto, embora Athena, conhecendo-o, sabia que ele ia dizer mais uma coisa. Só ficou surpresa com o que ele disse:
- Só ... não gostei desse... decote aí bem no meio da sua blusa... assim, vão ficar olhando para os seus...os seus....
Era a primeira vez que Kensou criticava algo nas roupas de Athena, sua atitude normal era apenas concordar quase cegamente e dizer que ela estava linda. Athena, surpresa com isso, sorriu sem graça:
- Te he... fazer o quê, né?
Os dois ficaram em alguns segundos por algum tempo até que Athena disse:
- ... e também vou usar essa roupa no King of Fighters 2003.
- No King of Fighters 2003?? - exclamou Kensou , surpreso - puxa, eu já estava achando que não ia nem ter esse ano! Quando foi que chegaram os convites que eu não vi?
Athena respondeu olhando para Kensou de uma maneira que mostrava que a notícia por vir não era boa.
- Kensou , eu ... como eu posso dizer isso? Er.....
Athena começou a gaguegar e Kensou entendeu que a notícia por vir era a que ele menos queria receber. Quando Athena levantou a cabeça para falar, eram os olhos de Kensou que estavam baixos:
- Entendi.....você vai lutar.... não nós, é isso? - disse Kensou, com uma voz que Athena não tinha ouvido partir dele ainda até hoje.
Athena não conseguia mais encontrar o olhar de Kensou, apenas via seus cabelos em frente aos olhos , e seria mentira se disséssemos que para ela também não foi difícil responder:
- É.
Kensou continuou de cabeça baixa.
- Perguntei para Chin o que ele achava e ele disse que eu já estou bem o suficiente para lutar em companhia de outro time e ...
Athena parou , pois Kensou parecia não mais estar ouvindo. Até que lágrimas brotaram dos olhos dele e ele saiu correndo da frente dela sem dizer mais nada.
.......

Dezembro de 2003. A data marcada par o começo do torneio de artes marciais The King of Fighters 2003 começar havia chegado.
Pouco antes de Athena entrar no estádio, foi despedir-se dos outros Psycho Soldiers . Encontrou Chin e Bao apenas. Não pôde deixar de estranhar, mas não disse nada ; despediu-se normalmente. Mas ainda estava se perguntando onde estava quem não estava ali naquele instante.
Quando as membros do "Schoolgirls Team" estavam prestes a entrar na arena, Hinako virou-se para trás para falar com Athena (a última da fila) , querendo perguntar se ela estava muito nervosa. Ao invés disso, acabou gritando:
- Athena, olha lá!
E apontou para trás. Athena virou-se e viu Kensou entrar correndo no mesmo túnel onde elas estavam e que levava ao estádio.
- Athena!! Athenaaa!!! - gritava Kensou, desesperado, achando que não havia sido ouvido. Para a surpresa das outras meninas do time (que já sabiam de toda a novela entre os dois), Athena voltou para trás no túnel e foi falar com ele :
- Kensou, você não deveria estra aqui! - disse Athena, nervosa, com medo de que xingassem Kensou ou algo assim - Porque você não se despediu de mim lá fora, como os outros ?
- Queria ser a sua última lembrança antes de entrar no estádio - disse Kensou, ainda esbaforido. Athena teve tempo apenas de murmurar "Kensou..." baixinho e ele continuou:
- ... e vc n podia entrar no estádio sem isso - disse, Kensou, abrindo o casaco e tirando algo de dentro . Era um nikuman. Com um coraçãozinho em cima. Athena estendeu as mãos e pegou o bolinho. E foi a última coisa que fez, pois logo em seguida uma tela de vidro enorme surgiu do teto do túnel e pôs-se exatamente entre ela e Kensou : isso era parte do alarme de última chamada, aquele que anunciava quando todos os lutadores deveriam ingressar na arena agora ou não lutariam. A tela de vidro bloqueava o túnel para que ninguém mais entrasse ou saísse. As garotas começaram a apressar Athena e ela recomeçou a andar em direção ao estádio. Virou uma última vez para trás. Viu o rosto de Kensou colado à tela de vidro, chorando; ele nem ao menos pudera ouvir o "obrigado" que Athena dissera ao receber o nikuman. Mas , apesar da tela de vidro abafar os sons, Athena podia ouvir as palavras dele, pois Kensou gritava, e muito:
- Athena!! Athena, eu gosto muito de você!!! Athena!!
Athena não sabia o que fazer e, embora isso também magoasse a ela, seguia andando em direção à arena. Até que Kensou, com toda a sua voz, gritou por último:
- Athena!!! Eu te amo!!!!
Ela virou-se de sobressalto, os cabelos roxos movendo-se no ar : Kensou dizia diariamente que gostava dela , mas nunca havia dito que a amava. Apesar dos dos gritos de "Athena, nós estamos atrasadas!" das suas colegas de time, Athena voltou até onde Kensou estava. As outras meninas, que sabiam que oficialmente Athena não correspondia aos sentimentos de Kensou na mesma escala que recebia estes, ficaram surpresas quando viram a pequena marca de batom deixada na tela de vidro, bem na altura de onde estava o rosto de Kensou, que olhava para sua Athena sem conseguir deixar de chorar.

Monday, March 05, 2007

Transmimento de Pensação

[02:43] ·$47Noodle: Pô, o Gled disse exatamente o q eu ia dizer o.O
[02:43] ·$01I'm a ·$04S·$01uper-hero - The answer is 42·$00: é a convivência, Noodz

E que escritora medíocre ela era, só sabia falar de si mesma.
Sentada na frente do pc, ela lembrava daquele diálogo no aeroporto, enquanto o avião aguardava para levantar vôo. E a garota ao lado, que até poucos momentos atrás era sua inimiga, anunciou:
- Ela está com dor de barriga.
E aí a garota falou sobre a "ligação forte" que as duas tinham, que permitia que uma experienciasse o que a outra sentia. Está certo, ela não era a pessoa mais cética do mundo, mas na hora aquilo pareceu demais, até mesmo para ela. Sentir dores de barriga alheias? Pffff.
Se ela ainda pensasse da mesma maneira a respeito disso, ela não estaria sentada em frente ao pc agora.
Tudo que ela sabia era que ele não estava bem. Ele e sua mania de usar meias palavras, metáforas, retóricas e semelhantes balelas, não havia esclarecido praticamente nada. Mas ela sabia o que estava acontecendo.
Enquanto ela estava deitada na cama, em meio a bichos de pelúcia, questionando-se quão sexy ela estaria com a camisola que então usava, subitamente cenas começam a passar na sua mente.
Raiva, muita raiva. Cenas de bar. Cervejas. Armas. Homens jogam cartas. Raiva, muita raiva. Cheiro de cigarro no ar. E qualquer coisa com cara de Pulp Fiction.
- Raiva?
Escrivaninha, armário, cama, e ele anda pelo quarto. Ela pode ouvir a voz dele. Ele está com raiva. Imagens cortadas, diálogos cortados. Respostas atravessadas.
- Ele está com raiva?
Rostos femininos. Rostos que ela reconhece. As imagens se passam rápido.
É muita coisa para uma cabeça só. Os pensamentos começam a se sentir claustrofóbicos. Duas cabeças em uma?
- Eu estou sentindo a raiva dele!
E que diferença faz um artigo!
Ela arregala os olhos. Sim, ela sabe o que está passando na mente dele. Mas que diabos! Ela já tinha mais "histórias de fantasmas" do que seria considerado normal! Ela já havia sido chamada de louca por causa dessas coisas! Quem iria acreditar se ela contasse isso?
Fiapos de diálogo chegam à mente dela.
- "Não é a primeira vez!"
Ela sabe de quem ele fala. Como cartas de um baralho sendo reveladas, tudo se encaixa na mente dela. *Poof!*
As cartas estão na mesa. Ela ouve palavras não-ditas, mais do que ela poderia contar a alguém. Contar? Que diferença faria, ninguém acreditaria mesmo. Nem o próprio.
Ela começa a andar pelo quarto, o babado da camisola balançando seguindo o movimento dos seus quadris. Pára em frente ao computador, procura os óculos. Abaixa a cabeça, pensa no que deve fazer. À meia-luz, ela fica a olhar o decote da própria camisola, os bicos túmidos dos seios. O Firefox está aberto no orkut. Ao acessar a comunidade comum a todos eles, observa que o único amigo que ainda a segue em sua jornada acaba de postar a menos de 5min dali. Acessa o blog da amiga. Posts sobre ursos, cachorrinhos. "Viu, é assim que se escreve, tonta! Falando suas intimidades para todos, você nunca fará sucesso!"
Ela sabe que isso é verdade. Ela lembra do seu próprio blog. O blog no qual as pessoas lêem posts sem comentar. Ela sabia que umas três pessoas já haviam lido o post mais recente, mas nenhuma comentara. "Se eu escrever isso no blog, vai ser EXTREMAMENTE óbvio de quem eu estou falando", pensou ela. E a pessoa de quem ela está falando provavelmente acharia ridículo tudo isso. "Sentir dores de barriga alheias? Pffff."
Ela começa a digitar freneticamente, tão forte quanto seus braços aguentam. Parece que só isso faz o cérebro aliviar.
E que escritora medíocre ela era, só sabia falar de si mesma. Mas agora , tudo que ela fez foi dar de ombros e dizer: "Que se dane!"