Wednesday, July 09, 2008

A Cereja do Bolo

Eu torci meu pé domingo. Da seguinte maneira:
Eu fui em uma festa de aniversário, e o bolo precisava ser pego na casa da confeiteira. Tínhamos cinco pessoas na casa:
1 - Minha vó (oitenta e poucos anos)
2 - Minha mãe e minha tia (na casa dos cinquenta)
3 - Eu
4 - Meu primo (vinte anos, rato de academia skatista e surfista)
Quem vocês acham que deveria ir buscar o bolo?

Fomos minha tia (a aniversariante), minha mãe e eu, em uma caminhada de meia hora para trazer o tal do bolo. No caminho, eu - que estava de botas plataforma - torci o pé tentando ler o que estava escrito em uma faixa na frente de um colégio.

Mais tarde, enquanto comíamos o referido bolo, minha prima perguntou quem queria uma cereja, que estava com ela. Eu disse que queria. Meu primo foi lá e pegou a cereja. Quando eu chiei com ele que ele deveria ser cavalheiro e deixar uma mulher (eu) pegar a cereja, ele riu. Mais especificamente, ele gargalhou na minha cara.

Segunda-feira eu fui para a faculdade a fim de terminar o último trabalho do semestre. Com pé torcido e tudo. Não sei o que ocorreu exatamente com ele, mas está doendo até hoje (quarta) e eu ainda estou mancando. mas a data para o último trabalho era até dia dez, então o melhor era terminá-lo o mais rápido possível.

Enquanto eu estava no ônibus segunda-feira, eu estava mentalmente ruminando sobre Paradise Kiss. Para quem não conhece, Paradise Kiss é um mangá de cinco volumes que está saindo em português, e um anime de doze episódios. E, para quem conhece e ainda está lendo/assistindo, é bom parar de ler esse posto porque eu vou contar on final da série! Ok, Spoiler Warning dado, seguimos com o post.



(Abertura de Paradise Kiss. Eu amo essa música, espero cantá-la decentemente algum dia!)

Pois então, eu estava ruminando sobre Paradise Kiss e sobre o porquê de fato de que o George e a Yukari não terem ficado juntos no final não me doeu tanto. Mesmo sem conhecer animes, quem me conhece sabe que os casais da história sempre pesam um bocado pra mim. Eu quase enloqueci quando fui assistir a segunda temporada de Dokuro-chan (um anime que eu sei que é shonen, não venham me dizer o óbvio) e vi que o Sakura ainda corria atrás da Shizumi-chan....PQP, Sakura-kun idiota, tu disse no final da primeira temporada que gostava da Dokuro-chan! Merece morrer mesmo, desgraçado!!



(Abertura de Bokusatsu Tenshi Dokuro-chan)

Mas então, de volta ao Paradise Kiss...embora eu não diria que isso tenha estragado a série ou coisa assim, eu de fato achei estranho eles não ficarem juntos no final. Tipo....não faz parte do kit final feliz obrigatório o casal ficar junto?

Pois então estava eu a procurar walpapers de Paradise Kiss e obviamente me deparei com informações sobre a série. E está escrito em mais de um lugar aí pela net afora que Paradise Kiss é o primeiro mangá josei a ser publicado no Brasil. Eu li isso e arregalei os olhos: Josei, claro! Agora tudo faz sentido!

Um breve resumo para o povo não-otaku: mangás como Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball e Naruto são mangás shonen, feito para guris adolescentes. Mangás como Card Captor Sakura (que passou na Globo e no Cartoon Network com o horrível nome de Sakura Card Captors) são mangás shoujo, mangás para gurias adolescentes. Tá, e josei é o quê? Josei, meus caros amigos, nada mais é do que mangá para moças que já saíram da adolescência, geralmente no começo dos vinte. Josei é conhecido por mostrar uma vida mais "realista", com preocupações referentes à faculdade, emprego, e por não mostrar que o cara por quem você se apaixona aos doze anos é o amor da sua vida. Opaaaa...

Ou seja, vossa narradora e autora desse blog já deixou de ser shoujo faz tempo e é, sem dúvida, uma josei em termos etários. Mas e em termos mangáticos?

Bem, o primeiro josei de que eu ouvi falar na minha vida foi Kimi wa Pet . Isso na época que eu era uma shoujo de fato. E Kimi wa Pet não me deu uma boa impressão do gênero. Ver a Sumire frustrada com o trabalho e depressiva do jeito que ela é não era uma boa visão para se ter a respeito do que na época era o futuro. Me parecia pessimismo demais. Algo do tipo: se Full Moon o Sagashite fosse josei, eu poderia ter toda a certeza de que a Mitsuki morreria no final da série!



(Abertura de Full Moon o Sagashite. Ainda não cheguei até o final da série, mas no primeiro capítulo é dito que a personagem principal, a Mitsuki, tem câncer e morrerá em um ano.).

Mas então, "voltemos de novo" para Paradise Kiss. Dá pra dizer que o final da série foi infeliz?

Bem, a Yukari desenvolveu uma super carreira de modelo com dez anos de sucesso, casou com o Tokumori e tudo o mais....tipo, o George foi um momento importante na vida dela, mas passou. Ajudou-a a crescer pra caramba, a descobrir o que ela queria...mas passou. Foi legal? Foi. Mas passou.

Pois foi nesse momento, no momento que eu formulei mentalmente essa resposta, que eu tive um estralo maior do que apenas algo referente a algumas discussões de animes.

Já passei por um bocado de coisas nessa vida, e uma certa parte dela está organizada de uma maneira bem diferente de que eu gostaria ao estar nos meus vinte e poucos anos de idade. E não raro isso me entristecia, parecia um atestado de fracasso.

Uma vez, um amigo meu me disse que ninguém iria se matar por mim. Eu achava que, se eu era capaz de fazer determinada coisa, aquela mesma coisa não poderia ser classificada como "se matar". Porém, nem todo mundo na face da terra usa o mesmo peso e as mesmas medidas para as mesmas coisas.

Seria legal ter chegado em casa segunda-feira e ter comida pronta, ou ter uma massagem pra ver se a dor no pé diminuía, ou algo do gênero. Mas não foi exatamente o que aconteceu. Na verdade, tem várias coisas que seriam legais no mundo. Seria legal ir à Lua. Seria legal ganhar sozinho na Mega-Sena. Seria legal poder se comer o que quisesse a hora em que se quisesse. Inclusive cerejas.

Tem muitas coisas que ainda não vi ou que eu ainda não fiz que eu gostaria de ter feito, ou gostaria que tivessem acontecido. Passar a noite fria de sábado vendo filme debaixo das cobertas e comendo pipoca. Ver o cara por quem eu sou apaixonada aparecer do nada na minha casa. Ganhar uma declaração de amor escrita em um soneto, com dois quartetos e dois tercetos. Bônus para o item anterior se ele viesse em uma data especial, tipo dia dos namorados ou no meu aniversário. E blá blá blá, acho que deu pra entender a idéia, né?

Mas não é porque não se tem essas coisas que a gente deve parar a vida.

Então eu resolvi seguir a minha vida adiante, optando por uma hipótese que ao menos me parecesse a mais tranquila. Como esse departamento da vida tem me dado muito stress, simplesmente decidi abrir mão dele. Completamente.

Eu tinha um amigo que lutava artes marciais que, ao receber uma massagem de uma amiga nossa em comum, respondeu que ele não podia relaxar, que ele precisava ficar tenso, para estar sempre pronto para a luta e etc etc. Era mais ou menos assim que eu estava vivendo, o tempo todo tensa esperando alguém que "engatilhasse" minha felicidade. E eu cansei.

Pode parecer o clichê de revoltada dizer "ah, não quero mais homem", mas pior que nem é revolta. Beira mais para um desânimo, alguém assistindo a cena e batendo de ombros, mas no momento tudo que eu quero é sossego, é parar de me incomodar. Como esse departamento só incomoda, resolvi jogá-lo fora. Todo, de uma só vez. Pelo menos assim fico mais leve. É meio chato desistir de algo que você considerou importante por boa parte da vida, mas bem...deve fazer parte de crescer.

Tuesday, January 01, 2008

Abóbora.

Foi na virada do ano passado.
No momento em que eu liguei para te desejar feliz ano novo, você disse que a ligação estava cortada, e que vc entendia metade de cada palavra que eu falava, algo nessas linhas. Você chegou a dizer que, se eu falasse "abóbora", você entenderia apenas duas sílabas.
Não lembro quais sílabas eram, mas lembro bem da sua voz dizendo abóbora. Abóbora, as sílabas separadas lentamente.
E eu naquele dia imaginando quão feliz seria a minha virada do ano ao seu lado. Como seria ouvir abóboras ao vivo, ao invés de pelo telefone. Abóbora, o som saindo separado dos seus grossos lábios enquanto eu olharia para você e sorriria, ambos sentindo a felicidade fluir. Abóbora, os dedos dançariam no ar, acompanhando o ritmo das silabas, como a tocar um piano etéreo que no ar pairasse. Abóbora, boiando no ar, flutuando entre nós, todos aqueles sentimentos, e então eu teria tido a certeza de que teria valido a pena esperar para ter você. Abóbora, burbulhando com as pequenas bolhas de champanhe a felicidade de apenas passarmos um momento juntos e mais nada.
Mas aquela abóbora brotada por telefone foi uma filha única, e a ela seguiu apenas o silêncio, ao invés de mais abóboras.

Thursday, July 12, 2007

RC: Insistentes.

Take my hand, and if I'm lying to you
I'll always be alone if I'm lying to you
Take your time and if I'm lying to you
I know you'll find that you believe me
You believe me

Take my Hand, Dido



- Eu não sei o que fazer da vida.
- Hein? - disse ela, aparentemente pega de surpresa com a frase dele.
- Eu não sei o que fazer da vida!
- Como assim? - disse ela, com tom de quem repetia a frase.
- Eu...eu não sei! - disse ele, abrindo os braços. Ela escorou a cabeça no ombro dele, mas sem tirar os olhos da TV que, sintonizada da MTV, mostrava um clipe qualquer.
Os dois estavam sentados no sofá da sala, em uma cena que teria uma completa cara de ressaca se não fosse o fato de que ambos estavam sóbrios. Apesar disso, havia um pouco de sono para inebriar os pensamentos deles. Claro, afinal a cena nunca pode ser perfeita.
Ele olhava com olhos vidrados toda essa atmosfera mostrada na TV, os clipes e toda a aparentemente glamurosa vida de músico. Money for nothing and chicks for free. Tudo isso parecia tão atraente para um menino que passara a adolescência trancado no seu quarto arrancando notas solitárias do seu violão.
Quebrando o silêncio, a mão dela pousou sobre a dele.
- Quer ajuda?
Ele olhou para ela de volta.
- Quer ajuda para descobrir o que você vai fazer da sua vida? - ela repetiu.
Ele queria dizer que sim. Queria mesmo. Mas tudo o que passava na sua mente eram dúvidas, medos e inseguranças, chamativos e insistentes como letreiros de neon na noite da Capital seriam para um alguém da Região Metropolitana.
Ele escorou a cabeça na cabeça dela, em silêncio mas sorrindo.
Era hora de ele virar um homem. Pois é nessa hora, na hora em que você sabe que deve abandonar sonhos inalcançáveis, que os meninos se tornam homens.

Sunday, June 03, 2007

RC: Se eu fosse rico

Quando tá escuro
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar
Há uma luz no túnel
Dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar
Eu tô na Lanterna dos Afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar


Lanterna dos Afogados, Cássia Eller



- Caralho!
Atirei o telefone celular longe. Claro que não contra a parede ou algo assim. Atirei-o na cama, afinal não sou rico para pagar outro celular assim, do nada.
Se eu fosse rico, não estaria aqui sozinho, em um sábado à noite. Não estaria ligando para amigos que não me atendem, e que devem estar ocupados fazendo sexo com as suas namoradas. Tá, mentira. Exagero meu. Nem todos eles estão namorando. E nem todos eles estão fazendo sexo selvagem agora nesse exato instante. Eu sei. Mas porque olhando de fora sempre me parece isso?
Já estou cansado de ver menininhas sorridentes. Sempre as mesmas menininhas sorridentes. Loiras, morenas, não interessa, elas sempre existem, elas sempre estão lá. Porque existem mulheres? Porque elas não me deixam tomar minha cerveja em paz?
Se eu fosse rico, poderia eu também ter uma? Se eu fosse rico, pararia de correr atrás de quem não me quer? Corro atrás de ilusões, de mulheres que nunca me corresponderão, e eu sei disso. Letras de músicas e palavras compostas em vão para apenas ganhar respostas estilo "te amo" no piloto automático enquanto outros homens ganham sexo. Não, não é o sexo em si. Vocês não entenderiam. Ninguém entende. Eu quero e não quero namorar. Eu quero tudo e nada ao mesmo tempo. Se eu fosse rico, poderia comprar o tudo e o nada?
Saber o que eu deveria fazer eu sei. Mas me faltam forças. Se minha vida continuar do jeito que agora está, tenho quem me apóie. Tenho amigos com quem sair. Ao menos eu acho que tenho. Não, talvez eu não tenha. Idiota, eu acabei de atirar o celular exatamente por isso, porque ninguém atendia!
Ninguém atende. Ninguém me entende. Na verdade, nem eu mesmo. Que diabos de pessoa quer mudar de vida e recusa ajuda para isso? Mas sim, eu quero. Sinto-me amarrado a essa vida atual, a pessoas que, embora arranquem de mim algumas risadas, não matam a solidão em definitivo. No fim da noite, a solidão sempre impera. Sim, eu quero ajuda! Vida, onde posso comprar uma? What the hell am I doing with my life?
Talvez eu não mereça algo melhor. Já fiz muita coisa errada na vida. Mereceria alguém que gasta suas noites em bares acompanhado de cerveja uma segunda chance? Quisera eu estar em casa, meramente vendo um filme e comendo pipoca! Desde que houvesse quem fizesse isso comigo.
A raiva me consome e tenho vontade de matar a todas. Todas, todas essas meninas sorridentes randômicas, e seus namorados. Todos esses fantasmas que jogam na minha cara que, para ser feliz, me falta algo. Mate todas elas. Todas elas! Mate todas as meninas sorridentes e felizes, todas as garotas que passarão o dia doze de junho ao lado dos seus caras, enquanto eu estarei sozinho, ligando para telefones que não atendem! Matem-nas, matem todas as garotas felizes...porque a garota que eu na verdade queria poder amar não é feliz.
Se eu fosse rico, poderia amá-la?

Friday, May 25, 2007

RC: Unilateral

- Cada dia estou me enchendo mais!
Denise era ruiva. Não dessas ruivas artificiais, com cabelos vemelhos. Uma ruiva de longos cabelos lisos laranjas, do tipo que normalmente pedem sardas como acompanhamento. Mas nem isso ela tinha.
- Eu acho que vou te internar!
Denise ouvia os berros, e mal murmurava em resposta. Era difícil ouvir a sua voz. O que ela queria era pedir ajuda para a sua mãe, sentada ao seu lado no ônibus. Mas tudo o que recebia em resposta era coisas do tipo:
- Tu gosta de incomodar as pessoas, né? Só pode ser isso!
O ônibus inteiro ouvia a mãe dela berrando, e alguns olhavam fazendo cara feia. Eu, ocupando um dos lugares perto de uma das janelas do ônibus, só ouvia um doce e tímido sussurro como resposta.
- Tu vai fazer a prova sim!
Senti vontade de interferir e dizer: não, minha senhora, não é da prova que Denise quer fugir.Ela soluçava baixinho, os dedos tímidos cobertos por uma luva cor-der-rosa movendo-se freneticamente. Na parte de cima da luva, uma enorme borboleta lilás. Quem dera Denise do nada pudesse bater asas e voar, como uma delas. Ela se sentiria bem demais naquele instante se pudesse fazer isso.
- Pessoa cega é quem não enxerga!
Cega, ela? Não, Denise só havia trocado os óculos naquele dia. E o que mais doía na sua alma, mais do que o frio entrando pela janela do ônibus, era o fato de que Daniel não gostasse dos seus novos óculos. Ele, Daniel, era loiro, sarado e, além de ser o alvo da paixão de Denise, era o cara mais popular da sala.
Denise mexia os dedos nervosamente, pensando nisso ao som dos berros da mãe. Ela queria ajuda, ajuda desesperada. O que se faz quando se tem 14 anos e se está apaixonada? Mas a mãe dela não a ajudava, e só pensava em uma coisa:
- Tu não pode rodar esse ano!
- Mãe, eu nunca rodei! - disse ela, como que por milagre fazendo sua voz audível. A voz de Denise era linda. Mas a mãe a ignorava, e seguia gastando sua verborréia toda, adiantando vários anos na vida da menina:
- Tu precisa entrar em uma boa faculdade! Olha para o Davi, consegue entrar em qualquer uma!
O Davi. O inoxidável irmão de Denise, cujo prazo de validade nunca vencia. Davi era perfeito em tudo, e ela era a irmã mais nova que nasceu de araque.
Se Denise pudesse de verdade saber das coisas, ela saberia que Davi, na verdade, não era tão perfeito assim. Mas, se ela pudesse saber das coisas, como eu sabia naquele instante, provavelmente ela escolheria saber outras coisas. Ela poderia escolher saber, por exemplo, que ela estaria livre para fazer sua prova de literatura tranquilamente, porque Daniel não estaria nem aí para ela. Daniel estava ficando com Alice, a menina mais cobiçada da sala. Na verdade, Alice era uma burra loira e sem peito que viraria mãe solteira em algum lugar nos próximos dois anos futuros enquanto Daniel morreria sozinho em uma cama de hospital com AIDS.
Enquanto isso não acontecia, Alice tinha um séquito de seguidores na sala. Um deles, chamado Calos, era o fiel escudeiro de Denise. Carlos era alto, magro e desengonçado, e era a dupla de Denise para a prova de literatura de hoje. Ele que havia dado o chaveiro de ursinho que balançava pendurado no fichário de dálmata de Denise. Em uns dez anos, Carlos seria um engenheiro de sucesso, formado nauela universidade pública famosa, e em uns quinze anos, ele e Denise estariam casados e criando umlindo casal de crianças. Por hora, os dois limitavam-se a sofrer juntos por migalhas de atenção de quem realmente não os merecia.
Nesse tempo todo que eu estive falando para vocês, a mãe de Denise seguiu praguejando feito uma louca. E foi nesse instante que eu desejei matar Denise. Desejei a ela uma morte lenta, com muito sofrimento. Não, não por causa dela. Não queria ver aquela adorável ruivinha de uniforme azul-escuro sofrer. Queria, sim, que a mãe dela sofresse. Que a mãe dela sentisse muita dor e que, ao ver a filha no leito de morte dela, pedisse perdão pelas ásperas palavras proferidas. Queria que a mãe dela entendesse que existem seres do sexo feminino que amam, tenham eles 14, 24 ou 34 anos. Por isso, só por isso, eu estava desejando a morte de Denise naquele momento.
A senhora sentada ao meu lado me pergunta se o ônibus vai até o Mercado. Não,snehora, este ônibus vai só atéo terminal Rui Barbosa, no Centro. Logo o ônibus pára em frente a um tradicional colégio de Porto Alegre e Denise desce.A mãe dela segue no ônibus, e começa a protestar com a senhora ao lado sobre como a juventude de hoje está perdida.
Denise olha para a frente do colégio e, de longe, reconhece Daniel parado, de pé em frente à porta. Em uma infundada esperança de que ele estivesse ali por causa dela, Denise atravessa a rua correndo, apenas para ser atingida em cheio pela Pajero do pai de Alice. Tudo acontece em uma fração de segundo, e algumas pessoas ainda dentro do ônibus no qual Denise estivera chegam a perceber o burburinho de alunos no meio da rua. Carlos, tentando abrir caminho em meio à multidão de alunos que se amontoou ao redor de Denise, vira para trás e lança ao ônibus um olhar de profunda raiva, do fundo dos seus olhos castanhos. Não, Carlos, eu não matei Denise.

Thursday, April 05, 2007

RC: Paciência

RC: Paciência


'Look at me - see me'
'Look at me - save me'
'Free me - find me'
'cos if there's
Somebody for someone
Yeah look at me


Somebody for Someone, The Corrs



- E ela me disse que ele repetia "Ela é um gênio!" enquanto falava de você.

Quantas pessoas ao longo da sua vida você encontra?
Com quantas delas você poderia ficar junto para sempre?
Quem disse que há apenas uma pessoa no mundo que poderia ser a pessoa da sua vida?

E ela ouvia a mãe dela contar o que a outra mãe dissera. Quem diria, ela havia impressionado alguém do gênero oposto. E com o atributo que ela sempre achara que não impressionaria ninguém, mas com o qual ela sempre sonhara impressionar: a inteligência.

Não, não estou falando daquele amor platônico não-correspondido pro anos. Esqueça isso! Estou falando daquela pessoa que passou pelas suas mãos e mesmo assim você deixou-a ir.

Os dois não eram tão diferentes, tinham em torno da mesma idade e em comum tinham a atenção que ambos dedicavam aos computadores. Para ela, era o hobby que ajudava a espantar a solidão. Para ele, era o ganha-pão, e a questão de se trabalhar com o que se gosta.

E porquê você deixou ela ir?

Mas também tinham muitas diferenças. A principal delas era os dois filhos a esposa que esperavam a ele em casa, enquanto ela estava bem longe de algo parecido.
A primeira vez que eles se viram ela nem sequer estava arrumada, estava com suas roupas mais largadas, roupas para se ficar em casa. E estava jogando Street Fighter no pc com um emulador de Playstation. Surpreendente? Para ele sim. Para ela era a rotina.

Momento errado, talvez. Quando ela por fim apareceu, seria errado você ficar com ela. Centenas de anos atrás, Shakespeare já nos falava sobre o homem certo no momento certo. Para você, foi o momento errado.

Eles ainda se viram outras vezes. Ele deixou com ela um modem de 56k que nem fez questão de ter de volta quando ela passou a usar Banda Larga. Ela tinha um pc problemático, e o modem ADSL dela era mais problemático ainda. Ele adicionou ela no msn para ver o que conseguia fazer, e ela não acreditava que alguém usasse o msn para fins de trabalho e riu da cara dele.

Ou será que a culpa é sua? Você se atirou com sede ao pote. Ao primeiro pote que viu. E depois encontrou outro pote melhor, mais bonito, que atende melhor as suas necessidades. Mas agora você não pode abandonar o primeiro pote.

Mas ele percebeu no que havia se metido. E logo logo o nome dela foi deletado da lista do msn dele. Uma amiga dela dissera que o caminho para o coração de um homem passa muito perto das preferências dele. Dizia a amiga que às vezes cai neles a ficha de que é necessário mais do que um corpinho e um rostinho bonito: um cérebro também ajuda. Uma garota que pudesse fazer companhia no fliperama e que não o chamasse de idiota ao ouvi-lo dizer que queria um novo videogame. E, quando um dos melhores amigos dela disse que iria começar a trabalhar com computadores, ela lhe disse que assim ele poderia conhecer garotas. O amigo dela respondeu que não era uma boa, porque a maioria das meninas não sabia muita coisa de computadores.

Não estou questionando quem você ama. Você sabe, o amor é aquele sentimento puro, intocável e blá blá blá. Mas eu estou questionando quem seria melhor para você.

Ele lembrava-se do dia que a ficha caíra. Ele estava saindo da casa dela, sem ter conseguido fazer aquele maldito modem conectar. Chovia muito, ela oferecera um guarda-chuva, mas tudo o que ele pediu foi uma sacola para não molhar o modem. A sensação de incompetência por ter falhado mais a dor que a queda da ficha o ocasionava quase chegavam a fazer seu corpo, molhado pela chuva, doer. Porque tinha de ser tudo assim? Ele era um bom moço, havia se esforçado tanto, era o único dos seus irmãos que havia feito "algo que prestasse" na vida. Porque agora ele se sentia tão impotente? As vozes na cabeça dele dizendo que ele era um perdedor, como fazê-las parar? Ele era esforçado, um bom pai, um bom esposo. E ela? Ela era um gênio. Seria ela um gênio, como naquele programa de TV que a garota morava dentro da garrafa e fazia magias? Magia, talvez fosse isso mesmo, porque uma garota assim não deveria existir. Não após você já ter achado alguém.

Arrependimento mata? Pois então, arrependa-se. Arrependa-se! As mães não raro dizem para que vocês namorem apenas depois da faculdade. Elas dizem isso porque sabem que a ficha que está caindo em você agora não cai tão cedo na vida de um homem.

Diálogos vinham à sua mente:
- E a sua esposa, ela gosta de computadores também? O que ela faz neles? - ela lhe perguntou.
- Joga Paciência. - ele respondeu, tentando rir.

Paciência. Era o que lhe restava. A vida dele já estava traçada. Casado, pai de dois filhos, enquanto ela flutuava magicamente livre por aí. Ele olhou para cima. A chuva pingava nos seus óculos, e ele mal conseguia enxergar. Porque tudo tem de ser assim? Porquê?

É tarde para voltar atrás, e nessa você perdeu. Volte para sua mulher e filhos. Sua esposa normal, com suas dúvidas e necessidades de garota normal. Já era.

- Cala a boca! - ele gritou.

Eu, calar a boca? Claro, posso perfeitamente parar de falar. Afinal, você mesmo irá carregar isso para sempre agora, e não precisará de alguém para ficar lembrando.

Saturday, March 31, 2007

RC: Brincando de morrer

A vida de um sonho é complicada quando você tira ele do armário. Apenas com este conto que apresento a vocês, garanto que o meu sonho perdeu alguns quilos devido ao esforço. O trabalho foi considerável, ainda mais pela intervenção musical que me fez mudar o destino original da personagem principal do conto. Algum dia, todos esses contos com RC estarão em um bonito livro, que vocês poderão ler nas suas próprias mãos ao invés de online. Sei que pedir comentários não fará algumas pessoas que aqui passam comentarem, mas mesmo assim, peço que comentem. E aproveitem! :)




RC: Brincando de morrer


Chegamos perto do final
Eu fico assim porque não sei me conter
Só conheço uma luz
Não vejo lógica no fim
Odeio ter que esperar para saber
O que é tão claro pois
Quebraram o relógio do universo
E eu não vou ficar para trás
Trocaram o errado pelo certo
Cem anos não me bastam mais
Mesmo assim, não fique aí parado, meu rapaz

Relógio do Universo, Lunática



Acabava mais uma manhã de aulas. Bandos e bandos de garotas saíam das salas, radiantes, com sorrisos alegremente estampada nos seus rostos. Conversavam sobre o conteúdo recém-aprendido, e os planos para o fim de semana ao lado dos namorados. Eram tão felizes que a felicidade delas parecia resplandecer ao Sol.
Porém, nem todos estavam brilhando naquele fim de manhã de sexta-feira. Será que é obrigação das pessoas ter felicidades que resplandecem ao Sol? Será que, apenas tendo isso, você é normal e pronto?
Eram essas perguntas que passavam na cabeça de uma menina isolada que, de longe, observava as colegas como quem via um programa na televisão. Ela abaixa a cabeça e olha para o visor do celular, deixando os longos cabelos loiros pendendo ao lado do rosto. Não havia nem ligações nem mensagens. Para que diabos ela tinha aquele maldito aparelho, que não recebia nem mensagens nem ligações? Se ela fosse alguém com mais determinação, ela atiraria o celular longe naquele mesmo instante. Mas ela não fez nada. Era geralmente o que ela fazia: nada. Os outros é que faziam, eles é que normalmente iam embora da vida dela.
A manhã que então findava era a de um dia de outono, que então deixava o pátio do campus cheio de folhas. Ela podia sentir o vento mexendo no seu cabelo e batendo contra seu corpo magro. Quantos quilos ela tinha perdido desde que toda essa história começara? Desde que ela entrara em queda-livre? Não há como saber o tamanho do estrago até se chegar ao fundo.
De repente, como um tiro em meio ao silêncio sem palavras, o celular tocou. Era o último resquício de família que ela ainda tinha: sua mãe.
- Oi, mãe. - disse ela, levando o aparelho ao ouvido enquanto lutava contra o vento batendo nos seus cabelos. - pode falar, estou ouvindo.
- Carolina, onde você está? - A voz da mãe dela ainda soava excessivamente preocupada. Haviam passado menos de quinze minutos do fim da aula, onde ela poderia estar? Mas ela mal levou isso em consideração, deveria ser uma preocupação natural para uma mãe que já perdeu um filho.
- Acabei de sair da aula, mãe. Hoje só vou ver aquelas aulas e depois vou pra casa, acho que antes das cinco eu chego.
A mãe dela disse "Ah, tá" e desligou. Aparentemente, a necessidade de segurança diária dela já havia sido suprida. Carolina começou a caminhar afastando-se do prédio de aulas, as folhas levadas pelo vento batendo nas suas costas. O cabelo, sendo levado pelo vento o tempo todo, a incomodava. Ela era uma estudante de Pedagogia, que dava aulas particulares para crianças no seu tempo livre. No entanto, quem a tivesse visto no começo da faculdade poderia até mesmo não a reconhecer agora. Com vinte e um anos, cerca de uns vinte quilos e incontáveis sorrisos a menos, Carolina vagava pelo campus afora, sem amigos. Enquanto caminhava para fora do campus, revivia as memórias dos útimos acontecimentos.
Talvez o mesmo vento, que fazia seus cabelos esvoaçarem, ajudasse a levar as pessoas embora. Ela lembrou-se do dia que, não muito tempo depois de ela ter passado no vestibular, ela chegou em casa para receber a notícia a respeito do seu irmão. Ventava um pouco no dia que ela soube que ele tinha se ido para sempre. Aquele rapaz alto, loiro, de ombros largos, que tanta segurança lhe passava, não existia mais. Mal havia Carolina se acostumado a ter passado de filha mais nova para filha única quando mais uma pessoa havia se ido da casa. Enquanto ela estava na aula, ela perdera uma daquelas cenas que fazem a rua parar para olhar, e que teve como resultado o fato de que, ao chegar para o almoço, apenas sua mãe estava em casa. Seu pai havia se ido também.
Qual era o problema das pessoas, que se iam assim, tão facilmente? Tão simplesmente? Deixar de existir é tão simples? Ela própria pensava em desistir, em sumir também. Parecia ser tão fácil!


Carolina marcava suas aulas por telefone, então ela acabava por conhecer seus alunos apenas no momento da aula mesmo. Ela parou em frente do prédio no qual estaria seu aluno de hoje. Era um desses prédios históricos. Um prédio velho. Desses que, quando você vê, você fica em dúvida se eles ainda são habitados normalmente ou se estão ali apenas para que as pessoas lembrem do passado ao olhar para eles. Ainda parada em frente ao prédio, apenas seus olhos azuis se moviam, observando este e aquele detalhe da construção. Prédios antigos faziam com que ela sentisse cheiro de morte. Ela torceu o nariz e tocou a campainha.
Quem abriu a porta foi um sorridente garoto de cabelos ainda mais loiros do que os de Carolina. Ah, não, mais sorrisos, pensou ela. Por um instante, ela desejou desaparecer, evaporar no ar, enquanto ouvia a vozinha feliz do garoto lhe dirigindo a palavra.
O garotinho loiro, que não deveria ter mais do que seis anos de idade e usava uma roupa parecida com um pijama, então a conduzia ela pela casa, cheia de corredores que dobravam aqui e ali, parecendo um labirinto. Um labirinto agoniante. Haviam nas paredes lindos quadros e o chão era forrado com belos tapetes bordados. Mas ainda era um labirinto agoniante. O garotinho falava sem parar, enquanto ela já havia desligado do que ele dizia, e apenas o seguia automaticamente. Os olhos dela estavam presos ao estranho cenário que aquela casa formava. Dentro daquela casa, ela sentia-se em algum lugar do século dezoito. Os móveis tinham aparência de móveis antigos, mas todos reluziam, mostrando que eram novos ainda. Estava difícil de entender o que estava acontecendo.
Até que eles chegaram à sala. Era uma sala ampla, e com poucos móveis. Encalavrada em um canto da sala, havia uma mesinha, com cadernos e livros. E na parede, de frente para a porta, um quadro enorme, que parecia ser um retrato do próprio menino. Carolina caminhou lentamente até a frente do quadro, os braços pendendo soltos ao longo do corpo, sua pasta estilo carteiro batendo na sua perna. Parou em frente a ele, e apenas então, ela se deteve a olhar os detalhes. A roupa que o menino usava no quadro soava a ela como algum tipo de fantasia, com babados e rendas. Parecia saído de algum lugar incerto do passado, algo semelhante às ilustrações representando o personagem principal do livro O Pequeno Príncipe, talvez.Apesar da diferença óbvia de idade, alguma coisa nele fazia com que ela pensasse no irmão mais velho que ela perdera. Os olhos dele eram de um verde-água, água de um mar calmo, mas que poderia atacar com ondas enormes a qualquer instante. A qualquer instante mesmo.
- Não se mexa! - o garoto gritou, e Carolina virou-se na direção dele, que estava perto da porta, atrás dela. Ela ouviu o som de algo movendo-se contra o vento, e de pequenos objetos balançando. O teto estava descendo? Não, era o lustre que estava caindo. Indo exatamente na direção dela. Ela quis correr. Quis gritar. Mas não fez nada disso. Era geralmente o que ela fazia: nada. O corpo dela caiu ao chão, com os cabelos loiros esparramados, empapados de sangue, mesmo sangue que formou uma poça no tapete ao redor dela.



Ela abriu os olhos. Olhou para o próprio corpo, nada aparentava estar faltando. No entanto, havia sangue nas suas roupas. Passou a mão nos cabelos. Estavam cheios de sangue. Mas não havia corte, não havia ferimento. Com os olhos parados, olhando para nada, ela tentava entender o que estava acontecendo.
Ela olhou em volta. Aparentemente, ela estava em algum tipo de sala. Escura. A única fonte de luz na sala era algo que de longe parecia um espelho, localizado às costas dela. Com que por instinto, ela seguiu a luz e aproximou-se do tal objeto. Tocou nele, e sentiu que ele era gelado, semelhante a vidro. Na verdade, parecia mais uma janela. No entanto, ao olhá-lo de perto com os olhos fixos nele, ela percebeu que o que ela estava vendo era nada mais nada menos do que o enorme quadro que estava na sala do menino. Era como se ela estivesse vendo o quadro pelo avesso. No entanto, o garoto, que antes posava sozinho imponente no meio do quadro, agora tinha uma companhia retratada nele. Uma garotinha loira, de longos cabelos lisos escorridos, de cerca de seis anos de idade, trajada num estilo similar ao do garoto, e com uma cruz na mão. Parecia incrivelmente com ela própria. Ela tentava lembrar se o garoto estava já anteriormente segurando uma cruz, mas ela realmente não conseguia lembrar disso.
A pintura que antes estendia-se na parede agora parecia ter sido feita em vidro mesmo, pois era possível para ela enxergar a sala na qual ela estivera a poucos intantes atrás apenas olhando para "o outro lado" da pintura. E lá, no meio da sala, era possível ver seu corpo estendido. A garota soltou um grito de admiração e levou as duas mãos à boca ao ver seu próprio corpo estirado no chão da sala, deformado com o impacto do lustre sobre ele.
- Você conseguiu - disse uma voz atrás dela.
Era o garoto. Sua voz soava agora um pouco grave demais para ser uma voz de criança, mas era ele mesmo.
- Você me matou! - exclamou ela, virando-se para ele bruscamente, com o seu espanto estampado claramente na sua voz.
- E você não queria morrer? Não era isso que você queria? - respondeu ele, sério, olhando ela de braços cruzados.
A resposta desarmou ela, que baixou os braços e ficou parada, olhando para ele. Ele seguia encarando-a, sem sorrir. Sim, era verdade, ela dizia com frequência que queria morrer. Mas ver seu corpo inerte e desmantelado não havia passado pela sua mente.
- Eu só...queria...
Ela queria fugir. Fugir de tudo que estava dando errado. Fugir de tudo que acontecia de maneira imprevista, de um jeito que ela não sabia o que esperar. Fugir de tudo que ela não sabia controlar.
- Eu lhe dei o que você queria - ele ainda a encarava, quase com cara de raiva. - e agora ninguém mais vai fugir. Ninguém mais vai magoar você.
Ela olhava para ele com uma expressão apavorada estampada no rosto, os olhos lacrimejantes. Queria fazer alguma coisa, mas não sabia o quê.
- Olha - disse ela, se esforçando para formular seus pensamentos o mais claramente possível - isso é um mal-entendido, eu quero voltar.
- Para quê? - disse ele, de braços cruzados, impassível - Para continuar sendo abandonada?
Ela não via resposta para isso. Ela achava que ele tinha razão, então como contrariar?
- Tem várias coisas que eu ainda não fiz na vida... - chutou ela. Foi o que lhe viera à mente na hora.
- Como por exemplo....?
Ela girou os olhos. Olhou em volta. Olhou para cima, como se isso a fizesse entrar em contato com os próprios pensamentos. De repente, com a rapidez de uma luz que é acendida na escuridão, uma idéia lhe ocorre:
- Eu nunca amei ninguém!
A surpresa com as palavras dela ficou evidente no rosto dele.
- Nunca amou ninguém? - repetiu ele, como se não acreditasse.
- É! Você sabe, eu nunca namorei ou algo assim...
A vida de Carolina no departamento amoroso era até então uma coleção de declarações não-correspondidas e de amores platônicos, nenhuma chance de relacionamento real. Se alguém dissesse a ela poucas horas atrás que ela usaria isso para salvar a própria vida, ela provavelmente teria olhado para a pessoa com sarcasmo e dado risada.
Ele ficou parado, olhando para ela, sem emitir um único som. Permaneceu assim por um tempo, até que por fim ele falou:
- Depois de tudo que você passou, depois de tudo que você viu...você ainda quer tentar isso, só para ser abandonada de novo?
Ela tentava juntar forças para contra-argumentar. Ela por fim conseguiu dizer:
- Bem...se eu morrer, eu não vou nem ter como tentar, né? - disse ela, tentando sorrir timidamente.
- Você passa o tempo todo pedindo uma coisa e, quando a ganha, diz que não quer mais...depois não me venha reclamar! - disse ele, com raiva.
Mal ele terminou de pronunciar essas palavras e a luz que provinha do quadro se apagou. A sala ficou totalmente escura. É o fim em definitivo, ela pensou. Ficaria na morte para sempre. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi sentar em um canto e chorar. Ela, porém, logo sacudiu a cabeça, balançando para os lados os longos cabelos loiros:
- Sentada não chegarei a lugar nenhum.
Em uma escuridão na qual não se via nada, Carolina estendeu os braços para a frente e saiu andando, sem saber para onde, sem saber esperando o que encontrar.
Ela não saberia dizer quanto tempo ela passou caminhando no escuro. Ela não saberia dizer quantos milhares de vezes ela pensou em desistir. Mas ela seguiu caminhando. E, por fim, bateu em alguma coisa semelhante a uma parede, que tinha textura de madeira. Não, não era uma parede: era uma porta. Tinha uma maçaneta, gelada e arredondada. Girando a maçaneta pode-se ouvir o gemido da porta ao ser aberta e logo uma luz forte e intensa cobriu os olhos azuis dela: ela estava na rua de novo.
- Acho que eu vou sair da comunidade "Eu nunca morri na minha vida" - disse ela, e começou a caminhar no caminho para casa.